Era apenas um sonho

Era noite de lua cheia, os lobos uivavam de forma diferente. O vento gélido e cortante balançava as árvores que deixavam cair suas folhas ao chão. Os ferreiros ainda martelavam o metal quente contra a bigorna produzindo um som estridente que se propagava por muitas distâncias. As pessoas ainda transitavam normalmente na estrada pisoteando e chutando as folhas caídas. Quase não tinha crianças na rua, já estavam em seus aposentos prontas para dormir.

E eu? Eu estava absorta no cotidiano que se apresentava a mim quando de repente, senti uma pontada no coração, as pernas estremeceram e isso logo me pareceu ser um sinal. Que sensação estranha, uma mistura de distância, saudade e perda. Logo a memória tratou de lembrar-me que você estava na guerra, então meu coração sentindo a pressão do temor palpitou mais forte. Será meu Deus? Não pode ser, ele prometeu voltar, ele vai voltar.

Desde então meu espírito sossego não teve, para aumentar meu temor, as cartas que a ti enviava não retornava a mim resposta alguma. Diante de uma situação nada confortável não me restou alternativa senão esperar. Com ansiedade e esperança passei dias e noites esperando seu retorno. Ficava todo o dia na janela a sua espera, mas o que eu vi durante muitos dias foi apenas a vida transcorrendo em sua normalidade sem indicar sua volta.

Desgastada pela espera, finalmente a guerra acabou e infelizmente com ela minhas esperanças. Longe avistei uma carruagem do exército entrando no vilarejo, uma mistura de dor e suspense tomou posse de minha alma. Não era você, era um oficial que veio me notificar de sua morte e oferecer os pêsames, falou que você morreu bravamente e que eu receberia uma medalha de honra em sua homenagem.

Enquanto recebia a notícia o meu chão se abriu, meus órgãos passaram a se convulsionarem vibrantemente, náuseas tomaram conta de mim, passei a ter vertigem e como que num susto, abri os olhos arregalando-os com força. Espantada, notei que estava sentada na cama banhada em suor e aos prantos de choro lhe toquei e tomei consciência para meu alívio, que tudo isso não tinha passado de um sonho.

Aprendiz de Poeta

 

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Lembranças de nós dois

Lembra? Foi naquela cabana que pela primeira vez

Nossos corpos se tocaram num ritual de paixão desenfreada.

A luz do luar penetrava pela janela indo de encontro a tua face,

Que iluminada, parecia a de um anjo cujo fim era me amar.

Tuas mãos tocavam minhas curvas desvendando os segredos do meu corpo

E eu sem nenhuma cautela entregava-me por inteira aos teus caprichos.

A cada sussurro e carícia, nossas energias eram renovadas e o amor

Parecia eterno e sempre novo, parecia perfeito e sem mácula.

Aquela cabana nunca mais foi a mesma, está impregnada com o nosso cheiro.

Nosso suor pingando por todos os cantos deixou rastros de uma louca aventura que

As paredes testemunharam, mas preferem guardar silêncio.

Se algum dia voltarmos lá quero ouvi-las.

Quer dizer, se algum dia eu voltar lá, pois não será possível irmos juntos.

Aliás, já tenho que ir, vim apenas deixar estas flores, não quero mais chorar.

 

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Aprendiz de Poeta